UMA JOVEM DE 15 ANOS

        No momento em que você se debate na inexperiência dos seus quinze anos, nada melhor do que lembrar-lhe que a vida sorri em cada coisa tocada de imaterialidade, no canto dos pássaros ou na face inocente de uma criança.

        Basta que encare sempre a vida com otimismo, sem esquecer que a vida, com o tempo, tem várias estações. A que você vive é a primavera que dura o tempo de uma flor, amanhã virá o outono que roubará das árvores as suas folhas, deixando a terra seca. O verão é aliado da primavera, marca um tempo de festas, mas o inverno é o envelhecimento da natureza, a imobilidade que substitui o andar elegante pela ajuda do bastão.                                

Pode ser um tempo de arrependimento ou a confirmação de uma felicidade num vídeo tape eterno.

         Assim, consuma o seu tempo florido no estudo, no trabalho e no divertimento sadio, e, quando o coração bater mais forte, descompassado por um olhar que lhe toque a fundo, ame.

         Faça tudo com reservas e pronta para receber os resultados da vida: palmas ou vaias, quedas ou reerguimentos triunfantes, sorrisos ou lágrimas, mas seja sempre você mesma, porque não há nada pior do que uma casca humana revestindo uma personalidade emprestada.

SORRI… CHOREI…

        Ontem sorri sozinho, escondido entre quatro paredes do meu pequeno quarto, perdido no silêncio quebrado pelo barulho do ventilador mal lubrificado.

        Era um sorriso inexplicável, pois não vinha de nenhuma piada, nem de nenhuma cena engraçada. Mirava-me no espelho, medindo a extensão de minhas rugas, até certo ponto, caridosas pelos sofridos anos que suporto. E o riso veio espontâneo no justo momento em que a mente encheu-se de você. É um amor criança que nasce tardiamente, provocando um riso misto de ironia. Na verdade nem sei se podemos chamar de riso o simples fato de um trejeito na face mostrar timidamente uns poucos dentes.              

        Agora uma cena diferente diviso no espelho e ainda absorto assisto passivamente o caminhar de uma lágrima pelas avenidas de rugas que molham o trânsito seco de minha face, indo morrer salgada em meus lábios.

        Continuo fitando o espelho, enquanto inúmeras lágrimas acompanham o rumo da primeira. Já não vejo a figura que tinha em frente. Não sei quem é mais autêntico, se eu ou o outro que somente ontem conheci.

        Sim, ontem eu chorei sozinho, fechado entre minúsculas paredes e entregue ao silêncio fúnebre de meu quarto. Chorei porque conheci o amor tão tarde, pois você veio e se foi mais rápido que um abrir e fechar de janelas, deixando um vazio que nunca existiu antes…

SENTIMENTO UTÓPICO

         Quando a vejo a cada manhã chegando para um novo dia, busco apressado o seu perfume na brisa fresca que exala seu corpo juvenil.

 

         E ela passa, como se desfilando numa passarela qualquer, indiferente a uns, sorridente a outros. Vai, airosa e terna em busca do saber.

 

         Os olhares que lhe acompanham são tantos que se atropelam para atingir a sua imagem.

          Em mim a certeza de que não fugirá, pois estaremos respirando o mesmo ar sufocado entre quatro paredes durante quarenta e cinco minutos.

 

         Sorrio escondendo um sentimento que me envergonha na diferença de um tempo, mas não consigo divagar o sofrimento interno que se esconde atrás de cada sorriso.

 

         E assim prossigo neste amor utópico, sem forças para refrear tudo que sinto, como um adolescente sonhador.

 

         Na certeza da impossibilidade de uma recíproca sentimental, acordo do sonho e corto essa crônica num ponto final.

ELA

        Os dias se sucedem sem uma motivação que me leve a aceitar o passar dos anos, a chegada de mais uma ruga ou mesmo a mágica que transforma meus cabelos pretos em brancos.

         Sair às ruas é ver aumentar em mim o sofrimento, pois a vejo em cada sorriso que os jovens trocam inocentes, em cada olhar que deparo acidentalmente quando desvio do chão o meu rosto cansado.

         Em tudo a vejo, mesmo porque aqui fiquei perante tudo que foi nosso. Passar frente ao cinema é relembrar quantos filmes deixamos de ver, inebriados por nossos beijos. Nesse tempo o filme era apenas uma desculpa para tê-la por mais duas horas.

         Aos domingos, a igreja nos recebia com a paz que ornava os nossos dias. Nossos lábios abriam-se e fechavam-se rápidos em orações que pareciam de uma única voz. Vez em quando trocávamos olhares em meio ao evangelho e contávamos juntos os dias em que estaríamos unidos naquele altar.

         Na pracinha, o nosso banco permanece desocupado, como se todos respeitassem a sua ausência, e sozinho, não permito que ele suporte o peso de minha saudade.

          De sua formatura, lembro ainda a valsa que dançamos como plumas soltas ao vento. Escorregávamos os pés pelo salão como se estivéssemos patinando. Hoje nem a música devolve a alegria daqueles dias.

         Quantos momentos felizes para relembrar, até parece que vivemos uma eternidade nesses últimos anos.            

         E você se foi sem tempo para uma palavra, um olhar, um leve aceno. E você se foi deixando filmes por assistir, um banco solitário, uma oração por rezar. E você se foi não sentindo mais o perfume da rosa que perfumava nossas manhãs, não mirando mais o infinito azul que adorava tanto, não vibrando mais com os beijos meus. E você se foi sem completar ¼  de século, levando a ansiedade, os planos que ajudou a construir, a felicidade que pensei existir, deixando em tudo uma saudade infinda e uma mensagem fúnebre que leio em meio às lágrimas que inundam a face: aqui jaz uma esperança!

RESTOS DE UM ADEUS

        Você ontem saiu de minha vida, tão depressa como entrou. No contraste destas fases, o sorriso que fez meu coração amar novamente cedeu lugar às lágrimas que molharam a face dela.

        E ficamos ali parados, mirando nossos orgulhos como duas crianças pirracentas. Ambos não queriam mostrar suas fraquezas e esquecemos de ser um pouquinho fortes para manter um amor tão grande.

        Não perdi sozinho, pensei, enquanto mal enxergava o caminho na volta de casa com os olhos embaçados de lágrimas.

         No quarto, as horas se arrastavam cheias de sua lembrança e enquanto desfilavam sorrisos, beijos, carinhos mil em minha mente, o sono não vinha. Foi assim por toda noite.

         Hoje a sua indiferença acabou de matar o moribundo, quando ao ver no meu rosto cansado o desejo louco de voltar, usou de chantagem exigindo outras vantagens. Foi como se estivesse num deserto morrendo a esmo, sem água, e você me desse a beber o fel em forma de caridade.

         Já não sofro, não sinto a sua frieza, o meu amor fez-me imune a qualquer humilhação. Já não quero mais lembrar este momento tão mal para mim. Já nem sei se vivo, pois sem ideal a atingir, sou apenas uma complementação na linha que o destino traçou.

Assim no espelho que existe ao longo dessa estrada, a imagem refletida, destorcida, de um corpo alquebrado, tendo a face tão marcada e a voz emudecida, é apenas o cadáver daquele homem que um dia você tirou do anonimato e fez sorrir, cantar, amar, enfim viver…

QUANTAS VEZES EU TENTEI FALAR…

        Hoje já não sei como explicar o nosso fracasso. Só sei que culpado não fui.

         Uma vez, lembra-se? Tentei mostrar-lhe o valor de ser jovem, de ser alegre, de ser bom, e fui taxado de bolha, missionário e outros adjetivos que se perderam no tempo.

         Quando daquela vez tentei falar dos meus sentimentos, não pensei que o descaso fosse desabar sobre mim com tal furor como desabou.

         E as palavras chegaram-me como pedras a ferir na alma o sentimento puro. Lutei contra a sua indiferença numa luta inglória, cheia de tropeços e caí.

         Anos e mais anos passaram-se e você voltou falando de um novo tempo, das lições que a vida lhe ensinou, de noites mal dormidas, de saudades, da vontade de ter o que não quis e de querer o que já não pode.

           O tempo lançou-me nos braços de um outro alguém, e você permaneceu sozinha, acorrentada ao seu orgulho doentio.

        Agora, despida dos erros da juventude, regressa em busca de momentos que já não posso dar, e fitando-me a fundo busca responder perguntas já mortas em meu passado.

         Enquanto retornava ao meu caminho, uma lágrima percorreu-lhe rápida a face enrugada pelo tempo, e um lamento ouvi ainda de seus lábios trêmulos: “Quantas vezes eu tentei falar, mas…”

 

PRIMAVERA

       A natureza se transforma, enfeita-se de flores que perfumam a brisa fresca de manhãs festivas. Os pássaros alvoroçados cortam os ares em cânticos que formam uma sintonia única de magia e encanto.

 

         As crianças, indiferentes aos problemas de ordem social que nos rodeiam, gastam sorrisos espontâneos em brincadeiras que existiram em nossos dias.

 

         Há uma paz, um sentido nas coisas que antes pareciam mortas, há um grito preso na garganta que agora se liberta para anunciar que é primavera.

 

         É tempo de sorrir, cantar, de brincar, de amar… É tempo de participar, de recomeçar, de reerguer, de reconstruir um sonho desfeito… É tempo de ser feliz, é primavera.

NA SALA

        A chuva acabara de chegar trazendo em seus pingos o som plangente de uma melodia cujo ritmo invadiu o meu ser já cheio de contradições rítmicas.

         Sentei-me num canto da sala, onde alheio aos acontecimentos da aula, transportei-me nas asas do tempo a um passado não muito longínquo.

         Maldizendo o tempo que a escondeu de mim durante tantos anos, fitei-a, imaginando-a minha, como se negando a própria fatalidade do destino e renegando até mesmo a liberdade que lhe aflora o riso. Invejo o seu sorriso, pois nele encontro uma mensagem que inexiste em mim.

         De seu olhar o brilho que surge em meio às trevas de minha solidão, o grito de alegria do escravo liberto, o esplendor de uma flor que nasce.

         Tão perdido estava que mal notei a fuga da chuva. No entanto foi a sua quietude que me trouxe a sua lembrança, e esta, por sua vez, trouxe-me à realidade, acordando-me do sonho impossível que ganhava forma nestas palavras, nós…

METÁFORAS E METONÍMIAS

          

 

        Naquela manhã o sol feria as flores com seus raios que rasgavam no céu as nuvens pálidas.

         No meu teto, este frágil mortal, lia um Camões procurando descobrir em seu conteúdo a identificação com a língua mãe.

         Lá fora a natureza sorri festiva, saudando os transeuntes, indiferente às suas amargas decepções.

         No Egito, como em quase todo mundo, choram a morte do grande líder Anuar Sadat. O trono egípcio treme diante de tal fato.

         O mundo é um barril de pólvora, aviões semeiam a morte no Oriente Médio, a fome ceifa milhares de vidas, a prostituição prolifera no coração da cidade. Cai a tinta da treva sobre a humanidade.

         Alheio a esses problemas, aprecio um Mona Lisa e adormeço embriagado nos sonhos que adornam os meus tenros dezoito anos.

FRUSTRAÇÃO

        Ontem novamente voltei a sentir a marca gélida da solidão. Ela veio

indiferente a minha felicidade, desconhecendo os planos que erguemos juntos,

trazendo as duras provas que há muito não provava.

 

        Recordando os desgostos passados, refleti sobre a influência que exerceram

em mim naquela ocasião. Jovem, imaturo, sem a experiência que hoje trago

emprestada pelos anos. E, ao final da reflexão notei que não evolui em nada, pois

mal consegui desparecer na face a decepção que causou-me o seu adeus.

 

Sei que  fiquei ali, perdido entre mil perguntas, sem achar sequer uma resposta

que por mais  louca que fosse servisse para justificar a sua decisão.

 

        Enfrentei sofrendo a nova dor, sem, no entanto libertar-me das frustrações

passadas.